Tendo em vista que a vida não é mais que um mero
espaço de tempo entre o nascimento e a morte, e que só o que possuímos
realmente, neste intervalo, são as lembranças que nos fazem ser muito do que
somos, quero falar um pouco sobre minha vida, ou seja: sobre minhas lembranças.
Nasci em 12 de abriu, de 1964, em São Paulo, capital. Logo em seguida minha
família mudou-se para o Mato Grosso, que na época era só Mato Grosso mesmo. O
estado ainda não havia sido dividido. Lá morei em uma cidade pequena chamada Rio
Brilhante, que era pequena mesmo. Só tinha uma avenida principal e algumas
ruazinhas que a cortavam. Penso que no município todo não deveria ter mais de quinhentos,
setecentos habitantes, quando muito, naquela época.
Ainda guardo lembranças bem vivas daqueles tempos, dos
caminhões que transportavam sacas de amendoins, parando na frente da minha
casa, na Avenida principal, que ficava apenas a alguns metros do posto rodoviário. Meus irmãos mais velhos, junto com os amigos,
furando as sacas para roubar amendoins, que comíamos escondidos dos meus pais e
muitas outras travessuras infantis. Morávamos nos fundos da pequena padaria do
meu pai. Nas noites quentes, toda a família se reunia na larga calçada, à
frente da padaria, sentados em grandes cadeiras de ferro tubular, revestidas por
mangueirinhas finas de plástico colorido. Toda noite alguns vizinhos se reuniam
a nós e as conversas tornavam-se animadas. Lembro-me que ficava lá, ouvindo os
adultos conversarem, até adormecer no colo da minha mãe. Nas noites frias, nos
aquecíamos em volta do forno a lenha da padaria, enquanto meu pai preparava o
pão para o dia seguinte. Era uma vida simples, mas muito boa.
Fiquei no Moto Grosso até os quatro anos, quando
voltei para São Paulo com minha família e fomos morar na periferia da cidade,
onde meus pais tinham um terreno e uma casa velha, em um bairro onde a maioria
das ruas era de terra, povoadas por muitas crianças que passavam o tempo
empinando pipas, jogando bolinha de gude e rodando pião. Um paraíso para um
menino crescer. Mesmo porque, naquela época, as drogas não eram tão populares
como são hoje. Minha infância foi muito mais inocente e protegida que a das
crianças de hoje em dia.
Já meus primeiros anos na escola foram traumáticos. Desde
o começo detestei a escola e a escola não gostou nada de mim, também. Nunca
entendi, nem me conformei, porque tinha que desperdiçar meu tempo com aquilo,
quando tinha coisas muito mais importantes para fazer. Tais como soltar pipas,
rodar pião e jogar bolinhas de gude. Repeti o primeiro ano por duas vezes
seguidas. Eu não conseguia me concentrar naqueles assuntos sem sentido. E os
anos subsequentes não foram melhores. Nada naquele lugar me interessava, a não
ser deixa-lo. E foi o que fiz aos dezessete anos, na sétima seria do primeiro
grau. Abandonei a escola. Eu achava que sabia tudo que precisava saber. Que
mancada, a maior da minha vida.
Depois disso, ainda tive muitas lembranças felizes,
mas elas foram, com o passar do tempo, rareando cada vez mais, conforme cresciam
as minhas necessidades. Infelizmente, para mim, na época, por mais que se
evidenciasse meu despreparo, não percebi isso. Ao contrário, com minha pouca
informação achava que estava totalmente preparado para vida. Não entendia como
o mundo funcionava.
Neste período fui muito influenciado pelo movimento
Hippie. Este movimento surgiu nos Estados Unidos, na década de 60, mas na
década de 80 ainda repercutia em muitas mentes juvenis pelo mundo. Eu o
interpretei como muitos jovens da minha idade o interpretaram: Um movimento que
rechaçava a educação formal considerando-a totalmente desnecessária na vida.
Uma volta às origens, a vida natural, pregavam seus idealizadores. O que
realmente importava não era uma formação acadêmica, era o sexo, a paz, o amor e
a liberdade. Para um jovem de dezessete anos essa era uma mensagem muito
convincente e atrativa. Um jovem, nesta idade, só tem romances na cabeça e não
percebe que precisa ter dinheiro no bolso para vivê-los como se deve.
Por um tempo essa filosofia fez algum sentido para
mim. Enquanto muitos outros jovens da minha idade, mais espertos, davam duro
nos estudos, eu ria dos seus objetivos fúteis vagabundeando pela Avenida
Paulista, andando de cabelos compridos e roupas sujas. Eu sabia de coisas que a
maioria deles nem desconfiava. O mundo estava indo para a merda com esse consumismo
exacerbado e essa ganância desmedida. Eu era um dos poucos que sabia disso.
Pelo menos, assim achava. Mas essa época foi passando como um sonho, do qual
não se tem controle algum. Assim é a juventude, só a percebemos realmente quando
ela já se foi. Aos pouco, comecei a entender o mundo, muito lentamente, para
meu azar.
Um dos meus primeiros despertares foi entender que
não poderia ficar vagabundeando para sempre. Talvez até pudesse, mas não era
isso que, de fato, queria. Ninguém quer desperdiçar a vida inteira sem fazer
nada, todos querem realizar algo na vida. De preferência algo que as pessoas
digam: “Puxa! Que realização maravilhosa a sua!” Mas eu não tinha preparo para
realizar nada assim. Por muito tempo olhei ao redor me sentindo como se
houvesse caído em uma armadilha, mas não sabia qual era de fato. Apenas sentia
que estava preso, cada vez mais, em uma situação da qual não conseguia sair.
Via os caras, à minha volta, realizarem coisas que eu não conseguia. Sempre
tive uma mente criativa, mas isso, ao invés de me ajudar, me atrapalhava. Era
capaz de ver as possibilidades, no entanto, não conseguia coloca-las em
prática. Faltava-me conhecimento técnico, instrução.
Oh sim! Eu sabia muitas coisas, havia lido muitos
livros. Mas nada do que eu sabia me libertava, ao contrário, por muitos anos me
senti como um detento em uma prisão sem muros. Podia enxergar a liberdade e
sonhar com ela, isso é verdade, mas não podia tê-la. Por outro lado, apesar de
parecer, minha vida não foi um desperdício total e absoluto. Todo este sofrimento
me fez entender muitas coisas. E a principal delas é que o maior anseio humano
é a liberdade. Foi por isso que abandonei a escola e me fodi, porque buscava liberdade.
Todavia, em minha ignorância, achava que a escola estava me prendendo, me
tolhendo, me impedindo de alcançar o que mais queira: ser livre. Hoje vejo que
eu era como um viajante perdido. Sabia aonde queria chegar, só não sabia o
caminho pra lá e nem que estava me afastando dele, seguindo para o lado
contrário.
É liberdade que todos buscamos. Quando entendemos o
quanto ela é importante, podemos compreender muito sobre nós mesmos e as outras
pessoas. Quando percebi isso comecei a estuda-la, tentando entender o que
realmente ela é. Contudo, definir liberdade não é uma coisa simples, porque é
muito fácil confundi-la com outras coisas. Eu sou a maior prova disso. Achei
que liberdade não custava nada, bastava quere-la e pronto, mas não é assim. Liberdade
é um dos artigos mais caros a venda no mercado, porque é o mais procurado e também
um dos mais difíceis de encontrar. Eu, por exemplo, achei que liberdade era
abandonar a escola e viver um sonho infantil. Achei que era livre só por poder
vagabundear por ai.
Não! Liberdade não é nada disso! Liberdade não é
poder ficar sem fazer nada, isso é desperdiçar tempo. Caralho! Foi o que eu
fiz. Liberdade é exatamente o contrário, conseguir fazer tudo que se quer
fazer. E o único modo de se conseguir isso é através do conhecimento. Quanto
mais conhecimento tiver mais livre será. Finalmente eu entendi: Quer ser livre?
Busque conhecimento, se instrua. Quanto mais souber mais seu destino estará em
suas próprias mãos. Um cara instruído pode abandonar tudo de uma hora para
outra e se tornar um colhedor de laranjas, passando o dia de baixo do sol
quente e se sentir bem com isso, se é o que ele quer. Ele pode fazer assim
porque, quando quiser, pode parar de colher laranjas e fazer outras coisas. Mas,
alguém que só sabe colher laranjas, tem outra escolha?
Essa foi uma grande sacada a que cheguei, em relação
à liberdade. Mas não a única. Eu pensei muito a este respeito, já que tinha
feito da minha vida uma prisão sufocante. E, depois de muito refletir, acabei
por compreender também que não se pode ser totalmente livre se os caras à sua
volta estão presos. Você pode alcançar um grau de liberdade extraordinário se
instruindo, mas se viver em meio à ignorância, sua liberdade será cerceada na
mesma medida desta. Isso já não é fácil de sacar. Sabe? A maioria dos caras é
capaz de entender, quase que automaticamente, que a instrução liberta. Isso se
não for uma besta quadrada como eu. Porque para maioria é fácil entender que
conhecimento traz dinheiro e dinheiro liberdade. Essa é uma conta simples de se
fazer, embora a liberdade seja um pouco mais complexa do que isso. Contudo,
sacar que a sua liberdade esta atrelada aos que estão à sua volta é mais
difícil de perceber. Mas é exatamente assim.
Com boa instrução conseguimos alcançar um grau
elevado de liberdade, em comparação a outros sem preparo, isso é certo. Porém,
se estivermos cercados pela ignorância, cedo ou tarde ela comprometerá nossa
liberdade. A ignorância solapa a democracia, aumentando a corrupção e elege
estúpidos para comandar os governos, acabando por tolher a liberdade civil e
individual; a ignorância impede os caras de alcançar seus objetivo
legitimamente, levando muitos para a marginalidade, tornando a vida em
comunidade insegura, tornando as ruas por onde andamos perigosas e isso limita
nossa liberdade extremamente, também. Não! Se aprendi algo com as cabeçadas que
dei na vida foi isso: Se queremos ser livres, mas livres realmente, não basta
apenas nos instruirmos. Se amamos a liberdade sinceramente temos que lutar pela
instrução de todos, não só pela nossa própria. Só assim, quando todos forem
instruídos corretamente, o indivíduo poderá ser livre, de fato, poderá andar
pelas ruas em segurança e fazer o que quiser.
Este talvez seja o principal motivo deste blog, transmitir
aos caras que o lerem essa mensagem. Ilustra-la de todas as formas possíveis
para que entendam que só a instrução, só a educação pode nos libertar da nossa estupidez
e nos tornar livres verdadeiramente. Todavia, a instrução de todos, não somente
a de alguns privilegiados. Nós, de modo geral, não somos nem bons nem mal,
somos apenas ignorantes fodendo uns aos outros. A educação ameniza isso. Pode
acreditar, essa é a experiência de um cara que já se fodeu muito na vida por
não ter entendido essa verdade antes.





